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A vida sem conteúdo

  • claudiabacelos0
  • 19 de mar.
  • 3 min de leitura

Vivemos numa época em que o açúcar tem de ser sem glicose, a manteiga sem gordura, o café sem cafeína. Queremos a forma sem a substância. O prazer sem o risco. A experiência sem o peso.

Não admira, então, que as pessoas também se apresentem assim: com aparência de profundidade, mas esvaziadas por dentro. Visíveis, ativas, ocupadas e, no entanto, ausentes de si mesmas.

A sociedade aprendeu a medir o valor das pessoas pelo que têm. Uma casa maior, um cargo mais alto, férias fotografadas no lugar certo. O que se possui tornou-se a linguagem do que se é. E quando o ter fala por nós, o ser vai ficando sem voz, até ao ponto em que já não sabemos bem o que temos a dizer.

Há uma correria constante nisto. Não uma correria com destino, mas uma correria para não parar. Porque parar seria confrontar o vazio que a acumulação foi tapando. O consumismo não é apenas uma questão económica: é uma estratégia psíquica. Comprar, acumular, atualizar, tudo isto produz a sensação temporária de que se está a construir algo. Mas o que se constroi, na maior parte das vezes, é apenas mais superfície.

As relações não escapam a este movimento. Também elas tendem a tornar-se rápidas, funcionais, intercambiáveis. Nunca fomos tão onipotentes nas nossas relações: temos amigos na ponta do dedo, e na mesma ponta do dedo podemos fazê-los desaparecer. Quando algo incomoda, quando o outro decepciona ou simplesmente cansa, basta um clique e aquela pessoa deixa de existir no nosso ecrã. O delete tornou-se um gesto banal. Mas o que se perde, com esta facilidade toda, é a capacidade de tolerar o outro real, aquele que não se edita, que tem arestas, que às vezes magoa e que, precisamente por isso, nos faz crescer. Há muita comunicação e pouco encontro. Muita presença digital e pouca atenção real.

E há conteúdo a mais. Informação em quantidade ilimitada, disponível a qualquer momento, sobre qualquer assunto. E, paradoxalmente, cada vez menos conhecimento. Porque o conhecimento exige demora. Exige que se fique com uma ideia o tempo suficiente para ela se tornar nossa. Os reels passam. As ideias ficam, quando há espaço para elas ficarem, mas esse espaço precisa de ser cultivado, e cultivá-lo tornou-se um acto quase de resistência.

O que eu penso, e o que observo no meu trabalho clínico, é o preço que se paga em silêncio. Não raramente, as pessoas chegam à consulta sem saber bem o que as traz. Sentem um mal-estar difuso, uma insatisfação que não tem nome, um cansaço que não se resolve com descanso. Viveram segundo os critérios certos, tiveram o que era suposto ter, fizeram o que era suposto fazer, e ainda assim algo falta. Esse algo, frequentemente, é a própria vida interior: o pensamento que não foi pensado, o desejo que não foi reconhecido, o sofrimento que não teve testemunha.

Construir o ser é um trabalho lento. Não tem fotografias. Não tem retorno imediato. Exige que se suporte a incerteza de não saber ainda quem se é, e que se continue, mesmo assim, a perguntar. É um trabalho ingrato pela sua invisibilidade, mas é o único que produz algo que dura: uma vida que é, de facto, sua.



Cláudia Bacelos, psicanalista com prática presencial em Viana do Castelo e online. Formação pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). Inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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