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Já reparou que o seu chefe lhe provoca exactamente o mesmo que o seu ex?

  • Foto do escritor: Claudia Bacelos
    Claudia Bacelos
  • 30 de abr.
  • 3 min de leitura

Não é coincidência. Não é azar. E não diz nada de mau sobre si.

Diz que há um padrão. E que esse padrão é muito mais antigo do que qualquer chefe ou qualquer relação amorosa.

O primeiro amor ensinou-nos tudo

Aprendemos a ser amados muito cedo. Não de forma consciente, não com palavras, mas com experiências repetidas que foram dizendo: é assim que tens de ser para seres visto. É assim que tens de te colocar para seres importante. É assim que funciona o amor.

E essa aprendizagem ficou. Tornou-se a única forma que conhecemos de existir dentro de um vínculo. Com o parceiro, com o chefe, com qualquer figura que, de alguma forma, ocupe o lugar de quem pode dar ou retirar amor, atenção, valor.

O problema não é o padrão em si. É que o aplicamos a toda a gente, incluindo a pessoas que nunca pediram isso de nós.

O chefe que está dentro de nós

Há algo que poucos percebem: muitas vezes não estamos a responder ao chefe real. Estamos a responder ao chefe que construímos na nossa cabeça. A uma autoridade interna, feita de medos antigos e de experiências muito anteriores ao actual emprego, que nos diz o que é esperado, o que é permitido, o que vai acontecer se nos colocarmos de forma diferente.

E esse chefe interior é implacável. Muito mais do que o chefe real alguma vez seria.

O mesmo acontece nas relações amorosas. Respondemos ao parceiro que idealizámos, ao parceiro que tememos, ao parceiro que o nosso psiquismo construiu a partir de figuras muito mais antigas. E ficamos presos nesse lugar, a fazer o que achamos que é esperado, a suprimir o que somos, a vender uma versão de nós próprios que garanta não perder o amor.

Mesmo que o amor já tenha ido há muito tempo. Mesmo que o chefe nem sequer seja assim.

A ferida por baixo do padrão

No centro de tudo isto há uma ferida narcísica. Não no sentido de vaidade, mas no sentido mais fundo: algo que aconteceu muito cedo na forma como aprendemos a existir para o outro. A pessoa que precisava de ser vista de determinada forma para ser amada. Que aprendeu que o seu lugar, o seu valor, a sua importância, dependiam de se colocar assim e não de outra forma.

E ficou com medo de responder de outro lugar. Não porque seja incapaz. Mas porque nunca o fez. E o desconhecido, mesmo quando é liberdade, sente-se como perigo.

O que acontece quando se arrisca

Quando alguém finalmente arrisca responder de um lugar diferente, algo surpreendente acontece.

No trabalho, a autonomia que tanto temia exercer pode ser exactamente o que o chefe real valoriza. A iniciativa que suprimia, a opinião que engolia, a ideia que guardava por achar que não era o seu lugar, de repente encontra espaço. E a pessoa percebe que estava a lutar contra uma sombra.

Nas relações, é como quando um casamento acaba e a pessoa começa a fazer coisas que nunca se atreveu a fazer enquanto estava dentro dele. Não porque a relação a proibisse, mas porque ela própria se proibia. E descobre que afinal havia um self lá dentro, à espera de espaço para existir.

Essa descoberta não é pequena. É, muitas vezes, o início de uma vida que finalmente parece sua.

Mas isto não se muda sozinho

Reconhecer o padrão é o primeiro passo. Mas o padrão está tão instalado, é tão antigo, tão confundido com a própria identidade, que percebê-lo intelectualmente raramente chega para o mudar.

É preciso um espaço onde seja possível experimentar outro lugar. Onde as perguntas possam ser feitas sem medo de perder o amor de quem as ouve. Onde o self que ficou suprimido possa começar, pouco a pouco, a encontrar a sua voz.

É isso que a análise oferece.


Se algo neste texto o fez parar e pensar, talvez valha a pena continuar esse pensamento. Estou disponível para conversar.


Claudia Bacelos

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