Ansiedade: quando o corpo diz o que não foi permitido sentir
- claudiabacelos0
- 10 de abr.
- 2 min de leitura
Toda a gente tem ansiedade. Toda a gente respira, medita, toma qualquer coisa. E a ansiedade volta.
Porque a ansiedade não é o problema. É a resposta a um problema que ninguém quis ver.
É energia que transborda. Algo que estava contido há muito tempo, talvez décadas, e que já não cabe. O coração acelera, o estômago aperta, a respiração encurta. Não é o corpo a falhar. É o psiquismo a falar pela única linguagem que ainda consegue usar.
E o que é que ele está a tentar dizer?
O que não foi acolhido não desaparece. Retorna.
E retorna muitas vezes do nada. Numa manhã aparentemente normal. A lavar os dentes. Sem motivo visível, sem conflito, sem razão que a cabeça consiga encontrar. É exactamente isso que desorienta quem sofre de ansiedade: a sensação de que o corpo enlouqueceu, de que a crise não tem explicação.
Mas não vem do nada. Vem de longe. Só que o caminho entre o passado e aquele momento ainda não foi percorrido.
Porque os pais disseram que não era para chorar. Que não havia razão para ter medo. Que a tristeza era fraqueza. Não por maldade, por amor mal equipado. Porque eles próprios não aprenderam a acolher o que é difícil.
E a criança aprendeu a engolir. A conter. A segurar.
Até que o adulto em que se tornou já não consegue segurar mais. E chama-se ansiedade.
Acolher não é ceder.
Há uma confusão que importa desfazer. Acolher o sofrimento de uma criança não é eliminar a frustração nem protegê-la de tudo o que é difícil. É dizer: entendo que isto é difícil. É normal que sintas o que estás a sentir. Estou aqui.
Quando isso não acontece, repetidamente, ao longo dos anos, o psiquismo aprende a esconder o que sente. A tristeza não tem lugar. O medo é inadmissível. A frustração é exagero. E a criança cresce convicta de que as suas emoções são um problema, não uma parte legítima de si.
Aliviar não é resolver.
Há técnicas que funcionam. Há medicação que ajuda. Não estou a dizer que não têm valor. Estou a dizer que quando a ansiedade passa com uma respiração e volta na semana seguinte, é porque o que ela estava a tentar dizer ainda não foi ouvido.
O trabalho analítico cria, pela primeira vez, um espaço onde isso pode acontecer. Onde o que ficou por elaborar pode finalmente ser dito. Onde os sentimentos podem ser escutados, nomeados, entendidos. Não para apagar o passado. Para que deixe de pesar tanto no presente.
Quando isso acontece, qualquer coisa liberta-se. Não de forma dramática. De forma silenciosa e profunda. A vida começa a desbloquear.
Se algo neste texto o fez parar e pensar, talvez valha a pena continuar esse pensamento. Estou disponível para conversar.
Cláudia Bacelos



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