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Relações tóxicas: porque ficamos quando devíamos sair

  • claudiabacelos0
  • 3 de abr.
  • 4 min de leitura

Relações tóxicas: porque ficamos quando devíamos sair

Há uma pergunta que aparece com frequência, dita em voz baixa, quase com vergonha: sei que isto não me faz bem, mas não consigo sair. Quem a faz já sabe a resposta que vai receber. Baixa auto-estima. Medo. Dependência emocional. E não é que esteja errada, é que pára exactamente onde a coisa começa a ficar interessante.

De onde vem esse medo? Porque é que a dependência se instalou com aquela pessoa e não com outra? O que é que essa relação, por mais dolorosa que seja, está a fazer por quem nela permanece?

A palavra "tóxica" é cómoda. Organiza o mundo em veneno e antídoto, em vítima e culpado, e tem a vantagem de não exigir que ninguém se pergunte muito sobre si próprio. Uso-a porque é com ela que o sofrimento chega, antes de ter nome mais preciso. Mas o que quero dizer está do outro lado dela.

Ficar não é falta de coragem. É uma solução.

O ser humano não faz coisas sem lógica. Faz coisas cuja lógica não vê, o que é diferente. Permanecer numa relação que dói tem uma função, e essa função vale a pena perceber antes de qualquer julgamento.

O preço real da liberdade

Existe uma ideia instalada de que ficar é passivo e sair é activo. De que quem fica se rende e quem sai escolhe. Mas esta leitura ignora algo de fundamental: a liberdade tem um preço, e esse preço é a segurança.

Não é uma metáfora. Quando saímos de uma relação, mesmo de uma que dói, perdemos algo concreto: a certeza de saber o que vai acontecer. Saber como a discussão vai correr. Saber o que é esperado de nós. Saber, ao fim e ao cabo, quem somos dentro daquele espaço. É pouco, dir-se-ia. Mas para o psiquismo, é muito. É uma estrutura. E sem ela, o que fica não é liberdade vivida como alívio. É um vazio que se sente como perigo.

A angústia que aparece à beira de sair não significa que a pessoa não quer de verdade, ou que não está pronta. Significa que está prestes a perder segurança. E o psiquismo humano, por uma lógica muito mais antiga do que qualquer relação específica, prefere a dor que conhece ao espaço que não conhece. Sair exige ficar com esse vazio sem o tapar com o regresso à relação. Porque regressar resolve o vazio de imediato, mas resolve-o da única forma que o psiquismo conhece: voltando ao mesmo lugar.

A tentativa que se repete

Há ainda outra coisa que prende, e esta é mais difícil de ver. Uma possibilidade, ilusória mas persistente, de que desta vez vai ser diferente. Que desta vez a conversa não vai terminar da mesma forma, que o gesto vai chegar, que qualquer coisa se vai finalmente reparar.

Freud observou que as crianças repetem nas brincadeiras aquilo que as perturbou. Encenam, constroem, desfazem, voltam a construir. Não por prazer, mas por uma necessidade de elaborar algo que as dominou, de passar de passivas a activas, de dominadas a autoras. É um trabalho. É uma tentativa séria de digerir o que não foi digerido.

O que importa perceber é que o sujeito não tem idade. Não deixa nada verdadeiramente para trás, carrega tudo consigo ao mesmo tempo. E há coisas que ficaram por elaborar, situações em que algo era necessário e não chegou, em que alguém devia ter estado e não esteve. A relação que dói pode ser exactamente o lugar onde essa tentativa se instalou. Uma encenação inconsciente, repetida com a esperança de que desta vez o desfecho seja outro.

O problema é que sem um espaço de elaboração, a repetição não transforma. Confirma. Cada ciclo reforça a convicção de que é assim, que não há outro modo, que o amor tem necessariamente este sabor. A pessoa não está presa por teimosia. Está presa porque a tentativa ainda não se esgotou, porque o psiquismo ainda não desistiu de conseguir, desta vez, o que nunca chegou.

O lugar que se ocupa e o medo de perder

Há ainda algo que se fala menos, e que talvez seja o mais difícil de reconhecer. Em qualquer relação, cada pessoa ocupa uma posição. Essa posição tem uma função. Fomos colocados ali, ou colocámo-nos ali, porque servimos alguma coisa. Ser o que cuida, o que aguenta, o que perdoa, o que salva, o que precisa de ser salvo.

Esse lugar, por mais desconfortável que seja, tem um valor preciso: é o lugar a partir do qual somos vistos. É o lugar que nos torna necessários, importantes, presentes na vida do outro. E quando esse lugar é tudo o que conhecemos como forma de ter valor numa relação, sair não é apenas perder a relação. É arriscar perder o único modo de existir que conhecemos dentro de um vínculo.

A pergunta que fica, raramente formulada com estas palavras, é: quem sou eu fora daqui? Tenho valor fora desta função? Serei reconhecida, desejada, importante, sem ser exactamente isto que aprendi a ser?

São perguntas que o psiquismo não faz directamente. Mas são elas que seguram muita gente no sítio, muito depois de a cabeça já ter percebido que devia ir.

O que nasce quando se sai

Quando alguém finalmente sai, há alívio, claro. Mas há também uma espécie de desmoronamento. Uma desorientação. Um vazio que não é ausência de sofrimento, é ausência de forma. E é precisamente aí, nessa falta, nessa angústia, que qualquer coisa começa a mexer-se.

O desejo não nasce na satisfação. Nasce na falta. É na ausência do conhecido, na perturbação do lugar habitual, que o sujeito começa, pouco a pouco, a encontrar o que é seu. O que quer, não o que aprendeu a querer. O que sente, não o que aprendeu a sentir em resposta ao outro.

Ninguém sai de uma relação que dói apenas porque percebeu que devia sair. Sai quando algo interno se desloca, quando o custo de ficar ultrapassa, de alguma forma, o custo de ir. Esse deslocamento não se força. Mas pode ser acompanhado.


Se algo neste texto o fez parar e pensar, talvez valha a pena continuar esse pensamento. Estou disponível para conversar.


Claudia Bacelos

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