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Quando o esforço se torna uma ameaça

  • Foto do escritor: Claudia Bacelos
    Claudia Bacelos
  • 4 de mai.
  • 5 min de leitura

Zygmunt Bauman descreveu a sociedade contemporânea como líquida. Não no sentido de frágil ou passageira, mas no sentido de que já não consegue manter a forma. As instituições existem, os regulamentos existem, os valores estão escritos nas paredes. Mas quando se toca neles, escorregam entre os dedos.

Vivemos nessa liquidez todos os dias. Mas há momentos em que ela se torna insuportavelmente visível. Quando alguém que se esforça, que dá tudo, que não desiste, começa a ser deixado de fora. Não por falta de capacidade. Por excesso de inconveniente.

O esforço que incomoda

Há uma ilusão que herdámos e que ainda tentamos passar aos nossos filhos: a de que o esforço é recompensado. Que trabalhar mais, dedicar-se mais, ser melhor, traz reconhecimento. É uma ideia bonita. E é cada vez mais falsa.

Bauman escreveu que "em vez de construir laços duradouros, as pessoas de hoje preferem conexões que possam ser facilmente desfeitas quando deixarem de ser convenientes." O que vale hoje não é o que se constrói com consistência e dedicação. É o que não perturba. O que não questiona. O que não exige nada de ninguém.

Quem trabalha mais, quem se dedica mais, quem não aceita passivamente o que lhe é dado, torna-se um problema a gerir. Não uma pessoa a valorizar.

E quando esse alguém é uma criança, o problema torna-se ainda mais perturbador. Porque a criança não está apenas a sofrer uma injustiça. Está a aprender o que o mundo é.

A mediocridade como valor de sobrevivência

Existe uma figura que reconhecemos cada vez mais: aquele que avança não por mérito, mas porque nunca incomoda. Que não confronta, não questiona, não exige. Que se adapta ao que é esperado com uma facilidade que não é virtude. É ausência de substância.

Bauman identificou isto com precisão: "A arte de viver numa sociedade líquido-moderna consiste em nunca parar, sempre estar em movimento." Mas há uma versão perversa desta fluidez: a de quem se move não em direcção a algo melhor, mas em direcção ao que é mais cómodo. Que evita o atrito não por sabedoria, mas por conveniência.

Numa sociedade que valoriza a adaptabilidade acima de tudo, ter valores e defendê-los, especialmente quando custam algo, passou a ser visto como um problema. Como rigidez. Como dificuldade.

E assim, paradoxalmente, quem se esforça mais sofre mais. Não apesar do esforço, mas por causa dele. Porque a dedicação visível, a excelência que se nota, expõe por contraste quem não tem o mesmo. E a resposta do sistema não é elevar os outros. É silenciar quem sobressai.

Mas há algo ainda mais perturbador do que a injustiça em si. É que essa injustiça não é passiva. Não é indiferença. É activa. Há pessoas que trabalham mais para manter o que é cómodo do que trabalhariam para fazer o que é certo. Que se organizam, que se protegem mutuamente, que tomam decisões deliberadas para eliminar o que as incomoda. Lutam. Só que lutam pela mediocridade. E quando têm à frente alguém mais fraco, alguém que não tem poder para se defender, esse alguém torna-se o preço da sua tranquilidade.

A intolerância ao desconforto que aprendemos todos

Escrevi noutro texto sobre a superprotecção parental. Sobre pais que, com a melhor das intenções, tentam poupar os filhos a toda a frustração, a todo o fracasso, a todo o desconforto. E sobre o preço que isso tem: crianças que chegam à vida adulta sem ferramentas para lidar com o que é difícil.

Sou a primeira a defender o oposto. A derrota desportiva, o colega difícil, o professor exigente, o esforço que nem sempre é reconhecido imediatamente. Isso faz parte da vida e é saudável.

Mas há uma distinção que não pode ser ignorada.

Há uma diferença entre a adversidade que forma e o abuso que destrói. E essa diferença não é de grau. É de natureza.

O que alastrou na sociedade, e aqui levanto uma hipótese entre várias possíveis, não é apenas a superprotecção dos filhos. É uma intolerância generalizada ao desconforto que já não distingue entre crescimento e destruição. Que trata da mesma forma a criança que precisa de aprender a perder e o adulto que não quer ser questionado. Que elimina o desconforto, qualquer desconforto, independentemente do custo para quem é mais fraco.

Quando uma instituição usa o poder que tem sobre os mais vulneráveis para gerir o desconforto que lhe é causado por quem questiona, não está a preparar ninguém para a vida. Está a mostrar, de forma muito clara, que os valores que proclama existem apenas enquanto não custam nada.

Isso não é um problema de educação. É um problema de valores. E é exactamente esse o problema que estamos aqui a reflectir.

O poder sobre os pequenos

Bauman alertou que "os danos colaterais da modernidade líquida incluem os seres humanos." Não como metáfora, mas como descrição literal de um sistema que, ao proteger as suas conveniências, sacrifica as pessoas que não têm poder para se defender.

Quando um adulto usa a autoridade que tem sobre os mais vulneráveis para gerir os seus próprios conflitos com quem questiona, não está apenas a ser injusto. Está a mostrar o que a instituição que o rodeia permite. Uma instituição com valores reais não deixa esse espaço aberto. Protege os mais pequenos precisamente porque são os mais pequenos. Quando não o faz, o que fica é o poder sem limite. E o poder sem limite cai sempre sobre quem menos se pode defender.

O que estamos a ensinar

Antigamente lutava-se por ideais. Por algo maior do que o interesse próprio. Por valores que valiam mais do que o conforto imediato. Hoje, em muitas instituições, essa energia foi substituída pela autopreservação. Por proteger o lugar, o privilégio, a tranquilidade. E os mais fracos tornam-se o preço dessa escolha.

A pergunta que fica, e que dói mais do que qualquer injustiça concreta, é esta: o que estamos a ensinar quando isto acontece?

Que o esforço não vale. Que questionar tem um preço. Que é mais seguro ser invisível, não incomodar, não sobressair.

Bauman escreveu que "a tarefa mais urgente da nossa época é proteger os seres humanos uns dos outros e, ao mesmo tempo, construir pontes entre eles." É simples de dizer. É extraordinariamente difícil numa sociedade onde as instituições aprenderam a gerir os problemas esperando que as pessoas se cansem e desapareçam.

Algumas não se cansam. Algumas ficam. Não por teimosia, mas porque há pessoas a olhar. A aprender o que os adultos fazem quando o que é certo custa algo. A perceber, ainda que não tenham palavras para isso, que a dignidade não é o que se tem quando tudo corre bem. É o que se mantém quando tudo corre mal.

Essa é a única meritocracia que ainda vale a pena defender.



Se este texto ressoou, é porque reconheceu algo. Às vezes reconhecer é o primeiro passo para não aceitar.


Cláudia Bacelos



Referências bibliográficas

Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Polity Press.

Bauman, Z. (2003). Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds. Polity Press.

Bauman, Z. (2011). Collateral Damage: Social Inequalities in a Global Age. Polity Press.

Bauman, Z. (2007). Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty. Polity Press.



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