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Ninguém nos escuta. Ou quase ninguém.

  • claudiabacelos0
  • 19 de mar.
  • 2 min de leitura

Sobre a diferença entre ser ouvido e ser verdadeiramente escutado — e porque essa diferença importa mais do que parece


Contamos as nossas coisas. Às amigas, ao companheiro, à mãe, ao colega de confiança. E muitas vezes, no meio da conversa, sentimos qualquer coisa estranha, uma ligeira decepção, uma sensação de que não era bem isso, de que a resposta não chegou ao sítio certo.

Não porque a outra pessoa seja má ou indiferente. Mas porque ouvir e escutar são coisas diferentes.

Quando ouvimos alguém, fazemos naturalmente aquilo que podemos: procuramos pontos de identificação: "eu também já senti isso"  ou oferecemos consolo, perspectiva, solução. Por vezes competimos, sem nos apercebermos: "o meu caso é ainda pior". Por vezes afastamo-nos, quando o que é dito toca em algo que não conseguimos suportar em nós próprios.

É humano. É inevitável. E é precisamente por isso que não substitui a escuta analítica.

A escuta que acontece numa análise é de outra natureza. Não porque o analista seja uma pessoa superior ou especialmente dotada de empatia. Mas porque a sua posição é diferente: não está ali para se identificar, para aconselhar, para resolver, nem para se proteger do que escuta. Está ali para que o outro possa dizer o que ainda não encontrou palavras, incluindo o que não sabe que pensa, o que evita, o que carrega sem o nomear.

Isso só é possível num espaço que não responde como os outros espaços respondem. Um espaço em que o silêncio tem lugar, em que a contradição é tolerada, em que não há pressa de chegar a uma conclusão útil.

Há pessoas que chegam à análise depois de anos a contar as suas histórias a toda a gente e a sentir que ninguém chegou realmente ao que queriam dizer. Não porque os outros não quisessem escutar. Mas porque não havia condições para isso.

A análise cria essas condições. E muitas vezes, só aí, algo pode finalmente ser dito.

Não é conversa. Não é desabafo. Não é receber conselhos de alguém com formação. É outra coisa — mais lenta, mais exigente, e com efeitos que nenhuma conversa, por mais próxima que seja, consegue produzir.


Claudia Bacelos

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