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Amar é também saber não ir

  • claudiabacelos0
  • 20 de mar.
  • 3 min de leitura

Há uma cena no filme biográfico sobre Ray Charles que me tocou profundamente. A mãe observa o filho cego tropeçar, cair, chorar. E não se mexe. Fica ali, imóvel, com o coração partido, mas não vai. Deixa-o encontrar o chão. Deixa-o levantar. Deixa-o descobrir, sozinho, que consegue.

E então acontece algo extraordinário. No meio do chão, o rapaz encontra um inseto. Para. Ouve-o com uma atenção absoluta, seguindo o som no silêncio. É um momento pequeno, quase imperceptível, mas é nele que tudo se revela: uma criança cega, sozinha no chão, a descobrir que os seus sentidos existem, que o mundo tem textura e som, que ela consegue orientar-se nele. Quando se vira para a mãe, o seu rosto diz o que as palavras não precisam de dizer. Ela estava ali. Ele sabia. Sentia a sua presença no próprio silêncio dela.

É uma das cenas mais perturbadoras e mais verdadeiras que o cinema alguma vez mostrou sobre o amor.

Perturbadora porque vai contra tudo o que sentimos quando amamos alguém. O impulso é imediato, visceral: proteger, amparar, resolver. Tirar da frente o obstáculo antes que ele magoe. E esse impulso não é mau, é amor. O problema é quando o amor não consegue ir além do impulso.

A superprotecção tem um custo que ninguém contabiliza

Vivemos numa época em que proteger se confunde com amar. Pais que resolvem todos os conflitos dos filhos. Que ligam à escola quando a nota é injusta. Que não deixam a criança sentir fome, frustração, aborrecimento, fracasso. Que estão sempre ali, prontos, antes mesmo de a criança perceber que precisava de ajuda.

Parece amor. Sente-se como amor. E é, em parte, amor.

Mas é também, em parte, uma dificuldade muito humana: a de suportar o sofrimento de quem amamos. Não é bem o sofrimento da criança que se torna insuportável. É o nosso próprio sofrimento ao vê-la sofrer. E então, quase sem nos apercebermos, resolvemos, intervimos, protegemos. Com todo o amor do mundo. Mas também, sem o saber, para nos aliviarmos a nós próprios.

Isso tem consequências sérias. Não para os pais, mas para os filhos.

A criança que nunca cai não aprende a levantar-se. A criança a quem nunca falta nada não desenvolve a capacidade de desejar. A criança que nunca enfrenta a frustração cresce sem os recursos internos para a suportar. E um dia, inevitavelmente, a vida apresenta a conta, e ela não tem moeda para pagar.

O que a mãe de Ray Charles sabia

Ela sabia que não estaria sempre ali. Que o mundo não ia dobrar-se à volta do filho. Que a cegueira era uma realidade, não uma injustiça a corrigir. E que a única coisa que podia dar ao filho, de verdade, era a confiança na capacidade dele, antes que ele próprio a conhecesse.

Isso exige uma coragem que poucos falam: a coragem de ficar parada. De assistir sem intervir. De confiar quando tudo em nós grita para agir.

Não é abandono. É exatamente o oposto. Ela estava ali, atenta, pronta a agir se fosse necessário. Mas suficientemente segura, e suficientemente amorosa, para saber que aquele momento não era de socorro. Era de crescimento.

O que eu vejo na clínica

Não raramente chegam adultos que nunca aprenderam a estar sós com um problema. Que entram em pânico perante a frustração. Que precisam de aprovação constante para avançar. Que não sabem o que sentem porque alguém sempre sentiu por eles.

Não vieram de famílias que não amavam. Vieram, muitas vezes, de famílias que amavam de mais, no sentido errado. Que confundiram presença com intrusão, cuidado com controlo, amor com ausência de dor.

A psicanálise não culpa os pais. Compreende-os. Mas também não fecha os olhos ao que acontece quando o amor não sabe recuar.

Amar é também suportar ver o outro sofrer

É talvez a coisa mais difícil que o amor pede. Não ir imediatamente. Não resolver. Não anular a dor antes que ela ensine o que veio ensinar.

A mãe de Ray Charles ficou ali, com o coração a partir-se, a ver o filho chorar no chão. E foi esse gesto, esse não-gesto, que fez dele um músico, um homem, uma vida inteira que era só sua.

O filho sabia que ela estava ali. Ouvia-a no silêncio.

O amor que deixa crescer dói mais do que o amor que protege. Mas é o único que realmente fica.


Claudia Bcelos

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