Viver para o olhar do outro
- claudiabacelos0
- 19 de mar.
- 2 min de leitura
O que acontece quando construímos a nossa vida em função de uma aprovação que nunca chega a satisfazer-se
Há uma queixa que regressa com frequência na clínica, formulada de maneiras diferentes mas com o mesmo núcleo: a sensação de fazer muito, de cumprir, de corresponder e ainda assim não sentir que é suficiente. Não para os outros, não para si próprio.
Quem formula esta queixa raramente a reconhece como o que é. Diz que está cansado. Que trabalha demasiado. Que os outros não valorizam. A ideia de que o problema possa estar na própria relação com o olhar exterior. no peso que se atribuiu, ao longo de anos, à aprovação alheia, costuma surgir mais tarde, com resistência.
Porque reconhecer isso implica uma pergunta desconfortável: se não for para os outros, para quê?
A psicanálise tem uma forma particular de pensar esta questão. O desejo do outro não é um obstáculo externo que bastaria remover para aceder a uma vida mais autêntica. É constitutivo. Somos feitos, em parte, pelo olhar que nos foi dirigido desde muito cedo. A criança aprende a desejar aquilo que parece ser desejável para quem a rodeia. Aprende a ser aquilo que é reconhecido, valorizado, amado.
O problema não é este processo em si; é inevitável e necessário. O problema é quando não há nada para além dele. Quando o sujeito nunca desenvolveu uma relação suficientemente própria com o seu desejo, com o que quer para si independentemente de qualquer audiência.
Nesses casos, a vida inteira organiza-se em função de uma cena imaginária: o que pensarão de mim? Estou à altura? Serei suficiente?
O que é curioso, e clinicamente relevante, é que esta posição não se resolve com mais sucesso, mais reconhecimento, mais provas de valor. Cada conquista satisfaz brevemente e depois o vazio regressa, porque a estrutura subjacente não mudou. O olhar do outro continua a ser o árbitro, e o árbitro nunca dá uma pontuação definitiva.
Há pessoas que passam décadas neste ciclo sem o reconhecer. Acumulam, realizam, correspondem e sentem um cansaço que não conseguem explicar. Não é falta de esforço. É o esgotamento de viver permanentemente virado para fora.
Sair desta posição não é uma questão de decisão nem de força de vontade. Não basta dizer a si próprio que não se importa com o que os outros pensam, esse esforço consciente raramente chega a tocar o que está em jogo.
O trabalho analítico propõe outra coisa: não suprimir a relação com o olhar do outro, mas examiná-la. Perceber de onde vem, o que sustenta, o que custaria abandonar. E, nesse exame, criar gradualmente a possibilidade de uma relação diferente com o próprio desejo.
Não uma liberdade total, isso seria uma ilusão. Mas uma margem, um espaço interior em que algo possa existir que não precise de ser validado para ter valor.
Isso, na minha experiência clínica, é o que mais se aproxima daquilo a que as pessoas chamam, um pouco imprecisamente, sentir-se bem consigo próprias.
Cláudia Bacelos, psicanalista com prática presencial em Viana do Castelo e online. Formação pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ). Inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses.



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