Porque é que repetimos sempre os mesmos erros?
- claudiabacelos0
- 23 de mar.
- 6 min de leitura
Já se prometeu que desta vez seria diferente. E foi. Até não ser. Há uma estranha fidelidade nos erros que repetimos, como se uma parte de nós soubesse exactamente o que está a fazer, mesmo quando outra parte jura que não quer.
Não é fraqueza. Não é falta de força de vontade. Não é ausência de consciência. É outra coisa, mais funda e mais silenciosa, que a psicanálise conhece bem.
Quando a consciência não chega para mudar...
Vivemos na época dos reels de psicologia. Em trinta segundos, alguém explica como mudar de vida, como parar de repetir os mesmos erros, como reprogramar o cérebro para o sucesso. As pessoas vêem, identificam-se, sentem um alívio momentâneo, prometem a si mesmas que desta vez vai ser diferente. E durante uns dias, talvez seja. Controlam-se. Esforçam-se. Seguem o caminho que lhes foi indicado. Até que tropeçam. E voltam ao mesmo sítio.
Não porque sejam fracas. Mas porque não houve mudança nenhuma. Houve apenas contenção. E a contenção não é transformação, é apenas adiamento.
A psicanálise parte de um lugar completamente diferente, e por isso assusta. Não promete atalhos. Não oferece técnicas para gerir melhor o que se sente. Propõe uma coisa muito mais perturbadora: ir ver o que está lá dentro. Aquilo que não se conhece, mas que nos governa. Uma força que age antes de nós decidirmos, que escolhe antes de nós escolhermos, que em nós decide antes de nós. E que, muitas vezes, não se quer conhecer.
Porque conhecer implica mudar. E mudar, mesmo quando é para melhor, é sempre uma pequena morte daquilo que se era. É um luto. Da história que se construiu, da pessoa que se foi sendo, e até do primeiro amor que nos formou, mesmo quando nos feriu.
É difícil. É doloroso. É verdadeiramente remar contra a maré. E a maré, aqui, não é o mundo lá fora. É aquilo que em nós prefere o conhecido ao verdadeiro, o familiar ao possível, a dor que já se conhece à liberdade que ainda não tem forma. E há ainda o paradoxo da liberdade: quanto mais nos aproximamos dela, mais percebemos o que nos custará a segurança que tínhamos.
Há uma imagem que me ocorre e que acho que ilustra bem isto. Uma centopeia que tentasse controlar conscientemente apenas uma das suas cem patas. As outras noventa e nove tropeçariam nessa. O movimento só funciona quando nenhuma é controlada. O psiquismo funciona de forma semelhante: quando tentamos forçar uma mudança racional sobre algo que tem raízes muito mais fundas, a parte que controlamos tropeça em tudo o resto. Não porque sejamos incapazes. Mas porque estamos a agir apenas numa pata, enquanto as outras noventa e nove continuam a fazer o que sempre fizeram.
É por isso que a psicanálise opera num lugar estranho, quase bizarro para quem vem de fora. Opera no erro. No engano. No lapso, no sonho, no que se diz sem querer, no que se esquece, no que parece não ter importância. Tudo aquilo que a ciência descarta como ruído, como lixo, como irrelevante, é exactamente aí que a psicanálise encontra a verdade. Não a verdade que se quer mostrar. A outra. A que insiste em aparecer precisamente onde menos se espera.
O que a repetição está realmente a fazer por nós?
Há uma frase do psicanalista J.D. Nasio que me ficou: "Repito, logo sou." A repetição não é apenas um erro que se perpetua. É uma forma de existir. Uma forma de continuar a ser reconhecível para nós próprios.
Repetir é, paradoxalmente, uma tentativa de estabilidade. Aquilo que em nós decide antes de nós tende a reproduzir o que conhece, mesmo quando o que conhece é doloroso. Porque o conhecido, ainda que seja mau, tem uma vantagem que o desconhecido não tem: é previsível. E a previsibilidade, por mais estranha que pareça, é uma forma de segurança.
Por isso a pessoa que cresceu numa casa onde o amor era imprevisível tende a escolher relações imprevisíveis. Não porque goste de sofrer. Mas porque é o único amor que reconhece como real. Por isso quem aprendeu que para ser amado tem de se anular repete esse apagamento em cada relação nova. Não por hábito. Mas porque é a única forma que conhece de se ligar ao outro.
E há ainda os ganhos que ninguém gosta de admitir. Porque a repetição, por mais dolorosa que seja, serve sempre alguma coisa. Mantém uma identidade. Confirma uma crença sobre o mundo. Evita o risco do desconhecido. Às vezes, mantém uma relação, um lugar numa família, uma forma de ser reconhecido. Estes ganhos não são conscientes, e não são cínicos. São simplesmente humanos. E enquanto não forem vistos, continuarão a trabalhar em silêncio, a alimentar aquilo que se diz querer parar.
A repetição não é um defeito de carácter. É uma mensagem. E como toda a mensagem, pede para ser lida, não ignorada.
De onde vem este padrão e porque é tão difícil de romper?
Os padrões que repetimos em adultos foram escritos muito antes de termos palavras para os descrever. Foram escritos nas primeiras relações, nos primeiros vínculos, na forma como aprendemos que o mundo funciona quando ainda não tínhamos capacidade de questionar esse aprendizado.
Uma criança não escolhe o que interioriza. Absorve. Como uma esponja que não filtra, que não selecciona, que não avalia. Tudo entra. O amor que foi dado e o amor que faltou. A presença e a ausência. O que foi dito e o que ficou suspenso no ar sem nunca ter sido nomeado. E tudo isso se torna referência. Torna-se a medida do que é normal, do que é possível, do que é amor, do que se pode esperar dos outros e de si mesmo.
É por isso que a repetição é tão resistente à mudança racional. Não está guardada na parte de nós que raciocina. Está inscrita muito mais fundo, num lugar anterior à linguagem, anterior ao pensamento consciente. Um lugar que as dicas, os reels e as listas de autoconhecimento simplesmente não alcançam. Não porque sejam inúteis. Mas porque chegam tarde. O padrão já estava lá muito antes.
E há ainda uma dimensão que raramente se considera, e que me parece das mais importantes: estes padrões não ficam em nós. Transmitem-se. Os filhos não herdam apenas os olhos ou o jeito de rir. Herdam também as formas de amar, de evitar, de temer, de se relacionar. Herdam os silêncios. Herdam as feridas que nunca foram tratadas. Herdam as perguntas que nunca foram feitas.
Aquilo que não foi elaborado numa geração passa para a seguinte, muitas vezes sem que ninguém se aperceba, sem que haja intenção, sem que haja culpa. Simplesmente passa. Como se o psiquismo, não encontrando espaço para resolver o que ficou por resolver, o entregasse adiante, na esperança silenciosa de que alguém, algum dia, consiga finalmente fazê-lo.
É uma herança pesada. E é invisível. E é exactamente por ser invisível que é tão difícil de recusar.
Romper este ciclo não é um acto de vontade. É um acto de coragem. A coragem de olhar para o que se recebeu, de o reconhecer, de o sentir, e de decidir que pode ficar aqui. Que não tem de seguir em frente.
O que muda quando se trabalha a origem e não o sintoma?
A psicanálise não propõe que se gira melhor o padrão. Não ensina a conviver com ele de forma mais funcional. Não oferece estratégias para o conter. Propõe algo mais radical e mais simples ao mesmo tempo: ir ao sítio onde ele nasceu.
Não para culpar ninguém. Não para revisitar o passado por nostalgia ou por acusação. Mas porque é impossível libertar-se de algo que não se compreendeu. E compreender, aqui, não é apenas intelectual. Não é perceber com a cabeça. É sentir, dentro de um espaço de escuta, o que nunca teve espaço para ser sentido. É dar palavra ao que ficou mudo. É deixar que aquilo que sempre se soube, mas nunca se disse, finalmente ocupe um lugar.
É um trabalho lento. Sem prazo. Sem garantias de conforto. Há sessões em que se sai mais pesado do que se entrou. Há momentos em que o que emerge surpreende, incomoda, desorganiza. E é precisamente aí, nessa desorganização, que qualquer coisa começa a mover-se.
Porque o que a psicanálise oferece não é alívio imediato. É transformação. E a transformação tem sempre um custo: o de deixar de ser quem se era para se poder ser quem se é.
Quando se trabalha a origem, o sintoma perde a razão de existir. Não desaparece de um dia para o outro. Mas começa a soltar-se. E com ele, muitas vezes, soltam-se também para os filhos, que deixam de herdar o que os pais conseguiram, finalmente, elaborar. O trabalho de uma pessoa sobre si mesma é sempre, também, um acto de amor pelas gerações que vêm a seguir.
Há uma frase que costumo pensar quando acompanho alguém neste processo: não se trata de mudar quem se é. Trata-se de perceber, pela primeira vez, quem se foi sempre, por baixo de tudo o resto.
E isso, quando acontece, muda tudo.
Se reconhece este padrão na sua vida e quer perceber o que está na origem, estou disponível para uma primeira conversa.
Cláudia Bacelos



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