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Porque é que me sinto culpada quando faço algo para mim?

  • claudiabacelos0
  • 1 de abr.
  • 2 min de leitura

Há uma culpa que não se anuncia. Não aparece quando fazemos algo errado. Aparece exatamente quando começamos a fazer algo certo, quando tomamos uma decisão que é nossa, quando escolhemos algo para nós. E então, sem perceber bem porquê, sentimos que fizemos algo terrível.

Esta culpa tem uma lógica que a psicanálise conhece bem. Não é a culpa de ter magoado alguém. É a culpa de ter deixado de ser o que o outro precisava que fôssemos.

Porque há uma coisa que raramente se diz: cada pessoa existe antes de nascer. Já é falada, sonhada, pensada. Já carrega o peso dos sonhos que outros não realizaram para si mesmos, das expectativas que não chegaram a nomear, das esperanças que foram depositando, camada a camada, antes mesmo de a pessoa ter voz para dizer o que quer. Somos, também, a segunda oportunidade de alguém. Um lugar onde se coloca o que ficou por viver.

E a criança sente isso. Não com palavras, mas sente. Aprende rapidamente o que a faz ser amada, admirada, motivo de orgulho. Aprende a ser a pessoa que o outro precisava que fosse. E faz isso com toda a boa vontade do mundo, porque quer ser amada, porque quer pertencer, porque o amor que conhece tem essa forma.

O problema é que, ao longo desse caminho, vai abandonando qualquer coisa de si. Não de uma vez. Devagar, em pequenas cedências, em desejos engolidos, em escolhas que nunca chegam a ser feitas porque a pessoa sequer se permite querer.

E depois vem a dívida. Não é uma dívida inventada. É real, concreta, feita de noites sem dormir, de sacrifícios verdadeiros, de amor que existiu mesmo que fosse condicional. "Tudo o que fiz por ti." Dito ou não dito, está sempre presente. E a pessoa cresce com a sensação de que a sua própria vida pertence a outro. Que querer para si é roubar. Que ser feliz à sua maneira é uma forma de ingratidão.

Por isso quando finalmente começa a escolher para si, quando decide ser fiel a si mesma em vez de ao papel que lhe foi dado, o corpo responde como se tivesse cometido uma falta. A culpa aparece não porque esteja a fazer algo errado, mas porque está a decepcionar alguém que contava com ela para ser de uma determinada maneira. E decepcionar, quando se cresceu a viver para o olhar do outro, parece insuportável.

A análise não resolve isto com uma absolvição. Não há momento em que alguém diz "não deves nada a ninguém" e tudo muda. O que muda, devagar, é a capacidade de distinguir o amor verdadeiro da dívida. De perceber que se pode honrar quem nos amou e ainda assim viver a própria vida. Que essas duas coisas não são incompatíveis, mesmo que durante muito tempo tenham parecido ser.


Se reconhece esta culpa em si, estou disponível para uma primeira conversa.


Da próxima vez falarei sobre as relações que nos fazem mal e das quais não conseguimos sair. E porque é que ficar, tantas vezes, faz todo o sentido.


Claudia Bacelos

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