Porque é que alguns problemas nunca se resolvem de vez?
- claudiabacelos0
- 19 de mar.
- 2 min de leitura
Tratar o sintoma ou perceber o que ele diz?
Há conversas que ficam connosco. Há pouco tempo, alguém me perguntou, com toda a naturalidade, qual era a diferença entre a psicologia e a psicanálise. Respondi. E fiquei a pensar no quanto ainda há por explicar sobre o que significa, de verdade, cuidar da saúde emocional.
Não é uma crítica. É uma constatação: vivemos numa época em que sabemos mais sobre a composição nutricional de um iogurte do que sobre o funcionamento da nossa própria vida psíquica.
O sintoma fala. A questão é se queremos ouvi-lo.
Quando aparece um sintoma, seja ele ansiedade, insónia, conflitos repetidos nas relações, bloqueios inexplicáveis, a tendência natural é querer que desapareça. Depressa. E há abordagens terapêuticas que trabalham exactamente nesse sentido: identificar o sintoma, desenvolver estratégias para o gerir, reduzir o desconforto. Isso tem valor. Não é pouco.
Mas a psicanálise parte de uma pergunta diferente: o que é que este sintoma está a tentar dizer?
Porque o sintoma não aparece do nada. É uma mensagem, muitas vezes a única forma que o psiquismo encontrou para comunicar algo que não consegue dizer de outra maneira. Tratá-lo sem o escutar é como desligar o alarme de incêndio sem verificar se há fogo. O alarme cala-se. O fogo continua.
O que acontece quando só se trata a superfície
Quando o sintoma é silenciado sem ser compreendido, não desaparece: desloca-se. Transforma-se. Aquela ansiedade que foi "gerida" regressa como insónia. A insónia que foi medicada regressa como dores crónicas sem causa orgânica aparente. O corpo torna-se o último recurso de uma psique que não foi escutada. As doenças psicossomáticas não são invenção, nem fraqueza: são o preço de uma vida interior que nunca teve espaço para se expressar.
A psicanálise não tem pressa. Não propõe atalhos. Propõe outra coisa: uma escuta que vai à origem, que procura a causa onde os outros procuram o alívio. É um trabalho mais lento, mais exigente, mais desconfortável em certos momentos. E é, por isso mesmo, mais transformador.
O que a psicanálise faz, afinal
Não se trata de revisitar o passado por nostalgia ou por obsessão. Trata-se de perceber como esse passado continua a organizar o presente: as escolhas que repetimos sem saber porquê, as relações que seguem sempre o mesmo padrão, os medos que não têm explicação racional mas têm uma história.
Quando se encontra a causa, o sintoma perde a razão de existir. Não é suprimido: é compreendido. E o que é verdadeiramente compreendido, tende a transformar-se.
É para isso que serve a psicanálise. Não para tornar a vida mais fácil de suportar. Para torná-la mais sua.
Claudia Bacelos



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