Auto-sabotagem: porque é que me saboto sempre que as coisas começam a correr bem?
- claudiabacelos0
- 31 de mar.
- 3 min de leitura
Há um padrão que muita gente reconhece em si, mas raramente consegue explicar. As coisas começam a correr bem, uma relação que parece funcionar, um projecto que finalmente avança, uma oportunidade que se abre, e então acontece qualquer coisa. Um conflito que surge do nada. Um esquecimento no momento errado. Uma decisão que a própria pessoa não consegue justificar. E tudo volta ao ponto de partida.
A explicação mais comum é "auto-sabotagem". Como se houvesse uma parte da pessoa que não quer ser feliz. Como se o problema fosse individual, uma falha de carácter, uma fraqueza que se deve corrigir com mais força de vontade ou com a lista certa de hábitos. A internet está cheia dessas listas.
Mas a psicanálise vê outra coisa. E o que vê é simultaneamente mais perturbador e mais humano.
Quando uma pessoa repete sistematicamente um padrão que a prejudica, quando volta sempre ao mesmo tipo de relação, quando cria o conflito exactamente quando tudo estava tranquilo, quando boicota o seu próprio sucesso de formas que ela própria não consegue explicar, raramente está a sabotar-se. Está a ser fiel. Está, à sua maneira, a amar.
Fiel a quê, exactamente? A um sistema. A uma família. A um lugar que lhe foi atribuído muito antes de ter idade para o questionar.
Pense numa família onde o pai nunca conseguiu realizar o que queria. O filho cresce e começa a conseguir. E de repente, sem perceber porquê, trava. Porque ultrapassar o pai não é apenas sucesso, é uma espécie de traição.
Ou a mãe que sacrificou a vida toda. A filha que a viu sacrificar-se e que, inconscientemente, sente que não tem o direito de ter mais do que ela teve. Que seria injusto. Que seria abandoná-la.
Ou ainda a família onde havia sempre uma crise, sempre alguém a precisar de ser salvo. A pessoa que cresceu nesse ambiente aprendeu que o seu lugar é na urgência, no caos, no ser necessária. Quando a vida acalma e tudo está bem, não sabe o que fazer consigo. O bem estar, estranhamente, desorienta.
São histórias diferentes. Mas têm todas a mesma raiz: sair do papel ameaça a ordem. E a ordem, mesmo quando é má, é o que se conhece.
A ordem conhecida desmorona-se. E isso, mesmo quando a ordem conhecida é má, é assustador para todos.
Por isso a pessoa volta. Não conscientemente, não com intenção. Volta porque pertencer tem um preço, e esse preço é não avançar. Volta porque a lealdade ao sistema familiar é mais forte do que qualquer decisão consciente de mudar. Volta porque no lugar que conhece, mesmo que seja desconfortável, sabe quem é.
Quando se começa a perceber isto em análise, a reacção mais comum não é o alívio. É a resistência. Tive uma paciente que, depois de anos de trabalho conjunto, me disse com alguma impaciência: não me venha outra vez com essa história dos ganhos secundários. Disse-o porque já sabia. E é exactamente quando já sabemos que a resistência fica mais intensa, porque aceitar significa que já não há desculpa para continuar no mesmo lugar.
E depois, quando a resistência baixa um pouco e começa a fazer sentido, vem outra pergunta, quase sempre a mesma. Está bem, percebi. E agora, como mudo isto? É uma pergunta legítima. Mas antes de a responder, há outra que aparece sempre por baixo: a de que ao tentar saldar uma dívida com os outros, a pessoa foi criando uma dívida consigo mesma. Uma dívida silenciosa, acumulada ao longo de anos de respostas dadas a partir do lugar onde os outros a colocaram. Anos de ser quem era suposto ser, em vez de descobrir quem é de verdade.
Essa dívida aparece tarde. Aparece como um mal estar difuso, uma insatisfação sem nome, uma sensação de que a vida está a acontecer ao lado. A pessoa não sabe que é isso. Não sabe que está, finalmente, a fazer contas consigo mesma.
E essas são as contas mais difíceis de fazer. Não porque sejam complicadas, mas porque exigem uma honestidade que ninguém nos ensinou a ter connosco próprios.
A análise não resolve isto com uma técnica ou com uma tomada de consciência. Resolve-se devagar, no espaço onde é possível perceber de onde vem a lealdade, o que ela custou, e o que seria possível se a pessoa se permitisse, pela primeira vez, ser fiel a si mesma.
Se reconhece este padrão em si, estou disponível para uma primeira conversa.
Da próxima vez falarei sobre a culpa. Sobre o que sentimos quando finalmente decidimos ser fiéis a nós próprios. E porque é que isso, que devia ser libertador, tantas vezes não o é.
Cláudia Bacelos


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